O tempo voa ou escorre ?
Um ano em poucas linhas
As horas passam tão depressa!
O nascente alvorece
Na janela uma brecha
E o poente se despede...
Os dias correm velozmente
Bem diante aos nossos olhos
Se despedem sem delongas
Em um só piscar de olhos
As semanas, sete dias
Ao notar, sete de novo
Quando acordo, trinta dias
Começou um mês de novo
Doze meses são um ano
Que nos pegam de surpresa
Ontem mesmo começou
Nos escorrem pelos dedos
Tão distante já chegou
Nas entrelinhas...
O poema é uma reflexão sobre como o tempo passa rápido demais, e a gente só percebe quando ele já foi. Ele vai aumentando a escala: começa nas horas, passa para os dias, depois as semanas, e termina no ano inteiro. É como se o poeta fosse dando zoom para fora, e a sensação de velocidade só aumentasse.
Um ano em poucas linhas
O título já é uma ironia. Um ano inteiro, que parece tão longo quando a gente está vivendo, cabe em poucas linhas. Mostra que, olhando para trás, tudo parece resumido, pequeno.
1ª estrofe - As horas
- "As horas passam tão depressa!"
É o desabafo que abre o poema. A constatação de que a hora não rende, o dia voa.
- "O nascente alvorece"
O nascente é o sol nascendo, o amanhecer. O dia está começando.
- “Na janela uma brecha"
Uma imagem bem íntima. É aquela frestinha de luz entrando pela janela de manhã, quando a gente acorda. É o início do dia, ainda tímido.
- "E o poente se despede..."
O poente é o pôr do sol. Mal o dia começou e ele já está indo embora. As reticências (...) dão a sensação de que passou num suspiro. De manhã para noite em um piscar de olhos. Por isso a primeira imagem é o relógio derretendo, e a última é o pôr do sol na fazenda.
2ª estrofe - Os dias
- "Os dias correm velozmente"
Se as horas já passam depressa, os dias correm. Não andam, correm.
- "Bem diante aos nossos olhos"
Não é uma coisa escondida. A gente está vendo o tempo passar, assistindo.
- "Se despedem sem delongas"
Os dias vão embora sem pedir licença, sem enrolação, sem dar tempo de se despedir direito.
- "Em um só piscar de olhos"
Reforça a ideia anterior. Um dia que parecia que ia durar para sempre, de repente acabou. É a sensação de "já é sexta de novo?"
3ª estrofe - As semanas
- "As semanas, sete dias"
Aqui ele começa a contar. Uma semana tem sete dias.
- "Ao notar, sete de novo"
Quando você percebe, já se passou outra semana. Sete dias de novo, e de novo, e de novo. É um ciclo que se repete sem parar.
- "Quando acordo, trinta dias"
O salto aqui é maior. De repente, não são mais sete dias, são trinta. Já virou o mês.
- "Começou um mês de novo"
E lá vem outro mês começando, como se o anterior nem tivesse existido. É aquela sensação de "meu Deus, já é outubro?"
4ª estrofe - O ano
- "Doze meses são um ano"
Ele fecha a conta. Doze meses, um ano inteiro.
- "Que nos pegam de surpresa"
Ninguém está preparado. O ano acaba e a gente fica surpreso, como se não tivesse visto ele passar.
- "Ontem mesmo começou"
Na nossa memória, parece que o ano começou ontem. Foi ontem que fizemos os planos de ano novo, as promessas.
- "Nos escorrem pelos dedos"
É o verso mais forte do poema, e por isso está ligado à imagem do relógio derretendo nas mãos. O tempo é como água, areia, mercúrio. A gente tenta segurar, fechar a mão, mas ele escorre. Não tem como reter.
- "Tão distante já chegou"
É o paradoxo final. Ao mesmo tempo que parece que foi ontem que começou, parece que já chegou tão longe. O ano já está distante, no passado, e a gente ficou para trás.
Resumo
O poema não é triste no sentido de desespero, é mais saudade e espanto. É aquele sentimento de olhar para trás e pensar: "onde foi parar todo esse tempo?"
Ele usa uma estrutura em escada: hora > dia > semana > mês > ano. Cada estrofe acelera um pouco mais, para a gente sentir na leitura a mesma velocidade que ele sente na vida.


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